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Quando uma cor salva vidas: o uniforme da Comlurb

17 de julho de 2026 7 min de leitura Design por Marcelo Henrique

Quando uma cor salva vidas: o uniforme da Comlurb

O uniforme laranja da Comlurb tornou-se um símbolo do Rio de Janeiro, mas sua origem está longe de uma decisão estética. É a história de um projeto de design que nasceu da observação, da pesquisa e da responsabilidade de tornar trabalhadores visíveis em uma cidade que insistia em ignorá-los.

Quando uma cor salva vidas: o uniforme da Comlurb

Poucos projetos representam tão bem a história do design produzido no Rio de Janeiro quanto o uniforme laranja da Comlurb. Existe uma diferença profunda entre o design que procura ser lembrado e o design que procura resolver um problema. O primeiro costuma disputar atenção. O segundo, quando funciona, desaparece na rotina.

O uniforme laranja da Comlurb pertence a essa segunda categoria. Tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis da cidade sem jamais ter sido concebido para ser um ícone visual. Seu verdadeiro objetivo era muito mais simples — e muito mais difícil: fazer com que trabalhadores voltassem para casa em segurança.

Essa talvez seja uma das demonstrações mais claras de que o design não encontra seu valor apenas na estética ou na originalidade. Em determinados contextos, uma decisão projetual pode reduzir acidentes, alterar comportamentos e preservar vidas. O uniforme da Comlurb continua sendo lembrado quase cinquenta anos depois justamente porque nasceu da função, não da aparência.

Antes do laranja, havia um problema invisível

No início da década de 1970, os garis do Rio de Janeiro utilizavam uniformes cinza. A escolha parecia natural para uma empresa de limpeza urbana, mas produzia um efeito inesperado. Nas primeiras horas da manhã, à noite ou sob condições de baixa luminosidade, os trabalhadores praticamente desapareciam na paisagem formada pelo asfalto, pelo concreto e pelos veículos.

O resultado era um número preocupante de atropelamentos e situações de risco.

A questão não era a falta de cuidado dos profissionais nem exclusivamente o comportamento dos motoristas. Era o fato de que, diante do trânsito, aqueles trabalhadores eram vistos tarde demais. Era um problema de comunicação visual antes mesmo de ser um problema operacional.

A pesquisa veio antes da solução

Em 1975, a então recém-criada Comlurb contratou o escritório PVDI Design, fundado por Aloisio Magalhães, um dos principais responsáveis pela consolidação do design moderno no Brasil e também um dos fundadores da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI). O desenvolvimento do projeto ficou sob responsabilidade dos designers Rafael Rodrigues e Maria del Carmen Zilio.

O aspecto mais interessante desse trabalho não foi a escolha da cor.

Foi a metodologia.

Antes de desenhar qualquer uniforme, a equipe acompanhou a rotina dos garis nas ruas do Rio de Janeiro. Observou horários, deslocamentos, movimentos repetitivos, condições de iluminação e a relação entre o trabalhador e o trânsito. A decisão cromática surgiu somente depois dessa etapa de pesquisa.

Esse detalhe costuma passar despercebido, mas revela uma característica recorrente dos melhores projetos de design: a solução nasce da compreensão do problema, não da preferência do designer.

O laranja nunca foi uma escolha estética

A definição da cor laranja foi consequência direta das observações realizadas em campo. Ela apresentava alto contraste em relação ao ambiente urbano e permitia identificar rapidamente a presença humana em diferentes condições de iluminação.

O projeto também incorporava faixas brancas nos braços dos uniformes. Durante o movimento contínuo da varrição, essas faixas produziam uma leitura visual ainda mais evidente para quem conduzia um veículo. Anos mais tarde, a evolução dos materiais permitiu substituir essas áreas por faixas retrorrefletivas, mantendo exatamente o mesmo princípio concebido no projeto original.

Nada ali buscava transmitir modernidade ou personalidade institucional.

Cada elemento respondia a uma necessidade concreta.

Esse é um dos exemplos mais consistentes de forma-segue-a-funcao produzidos pelo design brasileiro.

Dica

Quando uma solução permanece eficiente durante décadas sem exigir mudanças estruturais, normalmente ela revela que o problema foi compreendido com profundidade antes de ser desenhada.

A identidade visual nasceu da função

Curiosamente, um projeto criado para aumentar a segurança acabou produzindo uma das identidades institucionais mais fortes do país.

Hoje basta uma pequena área daquele laranja para que praticamente qualquer carioca reconheça imediatamente a Comlurb. Esse reconhecimento não foi construído por campanhas publicitárias ou por estratégias de branding. Ele nasceu da repetição consistente de uma solução funcional que se mostrou eficaz ao longo do tempo.

Talvez nenhum outro projeto de design desenvolvido no Rio de Janeiro tenha alcançado um reconhecimento cotidiano tão amplo quanto esse. É um caso raro em que uma decisão projetual voltada exclusivamente para a segurança acabou se transformando também em um dos maiores símbolos visuais da cidade.

Vejo esse fenômeno aparecer com frequência em projetos de identidade visual. Marcas duradouras raramente dependem apenas de um logotipo memorável. Elas tornam-se familiares porque seus sistemas resolvem problemas reais de maneira consistente.

É uma lógica que também orienta bons projetos de identidade visual: primeiro a função encontra sua forma; depois a forma constrói reconhecimento.

O design mais importante quase nunca procura protagonismo

Grande parte da produção contemporânea de design está concentrada na experiência de lançamento. Fala-se sobre impacto, inovação e diferenciação. Pouco se discute o desempenho de um projeto depois de anos de uso contínuo.

O uniforme da Comlurb segue outro caminho. Sua qualidade não está na novidade, mas na permanência. Décadas depois de sua criação, continua cumprindo exatamente a missão para a qual foi concebido.

Essa longevidade também desafia uma ideia comum de que o bom design precisa acompanhar tendências. Algumas soluções atravessam gerações porque foram construídas sobre princípios humanos que mudam muito pouco. Pessoas continuam precisando enxergar outras pessoas. O trânsito continua exigindo respostas rápidas. A percepção visual continua sendo determinante em situações de risco.

Enquanto essas condições permanecerem, o projeto continuará atual.

O melhor design nem sempre aparece no portfólio

Projetos como esse lembram que o design não existe apenas para produzir objetos mais bonitos ou marcas mais desejadas. Em muitos casos, ele organiza sistemas, reduz erros, orienta decisões e protege vidas.

Talvez seja justamente por isso que o uniforme da Comlurb represente um dos exemplos mais maduros do design brasileiro. Sua importância não está na cor laranja, nem na força de sua identidade visual, mas na inteligência silenciosa que conduziu todo o processo. A pesquisa veio antes do desenho. A função veio antes da estética. O resultado permanece quase meio século depois porque nunca tentou impressionar. Tentou apenas resolver um problema real.

E continua fazendo isso todos os dias.

Se você se interessa por projetos construídos a partir da observação e da estratégia, esse mesmo princípio orienta meu trabalho em identidade visual e design gráfico, desenvolvido para empresas do Rio de Janeiro que buscam sistemas visuais consistentes e duradouros.

Em resumo

  • O uniforme nasceu de pesquisa de campo, não de preferência estética.
  • A cor laranja foi escolhida para ampliar a visibilidade dos trabalhadores.
  • O projeto foi desenvolvido pelo PVDI Design para a Comlurb.
  • A identidade visual tornou-se forte porque sua função era eficiente.
  • Bons projetos permanecem atuais quando resolvem problemas fundamentais.
Marcelo Henrique

Marcelo Henrique é designer gráfico e desenvolve projetos de identidade visual, design editorial, websites e UI/UX. Neste espaço compartilha experiências, processos e decisões acumuladas ao longo de mais de 25 anos trabalhando com marcas.


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Marcelo Henrique é designer gráfico no Rio de Janeiro com 25 anos de experiência. Atende empresas em todo o Brasil.

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